Som de sirene, barulho de tiro
Na viela só sobra o suspiro
Na calçada um corpo caído
E ninguém viu nada, ninguém viu nada
São cinco da manhã, acordei com barulho
Vizinho sumiu, ninguém sabe o bagulho
Três moto preta cruzando a quebrada
No rádio da viatura, só risada abafada
O povo dorme, mas a fome vigia
O crime é sombra, te chama na esquina
Se tu não corre, tu vira estatística
Se tu protesta, tu é terrorista
Cidade sem alma, cidade sem dono
O sangue escorre, mas ninguém vê o lodo
Cidade sem lei, cidade sem sono
O medo governa, e a morte é o trono
Tem velho catando resto na feira
Enquanto no banco, tão roubando sem pena
Moleque no farol vendendo chiclete
A escola fechou, só sobrou internet
E o governo promete, mas nunca aparece
A rua resolve no ferro ou no cheque
A mão que aperta, a mesma que rouba
E a boca que fala, a mesma que afoga
Cidade sem alma, cidade sem dono
O sangue escorre, mas ninguém vê o lodo
Cidade sem lei, cidade sem sono
O medo governa, e a morte é o trono
Aqui ninguém vê, aqui ninguém fala
Se piscar duas vezes, já somem tua cara
Aqui ninguém manda, aqui ninguém presta
Se quer sobreviver, já sai de cabeça aberta
Cidade sem alma, cidade sem dono
O sangue escorre, mas ninguém vê o lodo
Cidade sem lei, cidade sem sono
O medo governa, e a morte é o trono
Mais um dia, mais um sumiço
O asfalto esconde, o sistema é omisso
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